
O maior mérito dos filmes de Woody Allen que já vi é o de conseguirem, verdadeiramente, criar personagens. Ontem vi
Hannah and her Sisters (1986) e fiquei, a certa altura, espantado com o nível de familiaridade que criamos para com as personagens. A direcção de Allen deixa-nos entrar nas personagens, por vezes bem para lá do que estas entram umas nas outras. Nós já conhecemos aquelas pessoas no fim do filme, e começamos bem cedo a estabelecer relações entre aquelas personagens e as figuras que giram à nossa volta, na vida de todos os dias. A direcção de Allen denota uma profunda experiência acerca das relações urbanas, a convivência difícil entre os nossos instintos e emoções mais básicos e as regras sociais, em grande parte construídas sobre a vontade de anular o mais imediato e, portanto, o mais forte em nós.
A tensão entre o
amore sacro e o
amore profano, entre o dito e o não-dito que também mora em cada um de nós, e que depois, normalmente, acaba em desenlaces mais ou menos grandiosos inscritos na nossa biografia…
Depois, claro, o humor que atravessa os seus filmes, a
ironeia construtiva, a apelar à cultura e à subtileza.
Não me teria importado se este filme tivesse durado mais três horas, apenas seguindo o rumo das personagens e das suas vidas entrecruzadas, as suas vidas interiores, gostos musicais, escolhas de vinho ou decoração do
Loft.
Pedro